HOME










































Armindo Trevisan

              Novo Hamburgo tem o mérito de ser uma das primeiras cidades brasileiras a se interessarem por salvar uma certa identidade, não só através da restauração de locais e prédios históricos, como também pela preservação de registros estéticos, os registros da sensibilidade de seus artistas. E o fez de um modo insólito: reunindo um acervo de mais de 385 obras de um único artista, Ernesto Frederico Scheffel.Poder-se-ia objetar: será possível a nós, contemporâneos, ajuizar do valor "futuro" de telas cujas tintas ainda estão úmidas? Acaso a História não ensina a duvidar de apressadas opiniões? Respondemos: num país como o nosso, de escassa tradição cultural, a primeira tarefa a cumprir é reunir. Noutras palavras: preservar, para os vindouros, alguma coisa valiosa do nosso patrimônio. Mais do que criticar, acolher, visando com isso a atrair a atenção das pessoas para o que é nativo e regional. 

              A Pinacoteca da FEFS propõe aos seus visitantes uma visão panorâmica da produção do artista. As telas, as aquarelas, sua obra gráfica (desenhos e gravuras), esculturas, partituras, etc. ocupam 3 pisos de um casarão de fachada neoclássica que, já por si, vale uma visita. Trata-se de uma das mais importantes construções da cidade (1890) que, por sinal, permite visualizar no seu bojo características preciosas da arquitetura teuto-brasileira, por exemplo, as tesouras que sustentam o telhado, e o madeirame original que lhe deu Adão Adolfo Schmitt, filho do imigrante e vendeiro Johann Peter Schmitt, fundador da antiga Hamburger Berg. 

              A disposição das telas pelo critério cronológico, o das décadas, favorece a compreensão da linha evolutiva do criador. Fixemo-nos, brevemente, no itinerário que nos é proposto. Como qualquer artista, Scheffel apresenta uma fase instintiva: a da produção (desde os 8 anos de idade) de óleos sobre aspectos da cidade, entre os quais um de seus primeiros óleos sobre madeira que representa a casa do ex-Prefeito, Dr. Odon Cavalcanti. Outros quadros se atêm à temática local. Já a década 1940-1950 caracteriza-se por uma produção relacionada com a formação específica do artista que, durante anos, freqüentou o Instituto de Belas Artes e Escola Técnica Parobé de Porto Alegre.


Erotismo

              Seguem-se-lhe as obras realizadas no Rio de Janeiro, onde participou, de 1950 em diante, de diversos Salões, conquistando, após árduas labutas, o "Prêmio de Viagem ao Estrangeiro" com o óleo "Jerônimo", atualmente no Museu Nacional de Belas Artes. Na década de 1960-1970, após visitar os museus de oito países europeus, Scheffel radica-se em Florença, inscrevendo-se na prestigiosa Academia de Belas Artes da terra de Fra Angélico. Percebe-se, pouco a pouco que Scheffel consolida sua visão pessoal de mundo, com uma temática cada vez mais singular. Tudo o que produziu, de então para cá, pode ser considerado desdobramento dessas possibilidades. 

              É hora de formularmos uma questão: como poderá o visitante da FEFS compreender a produção de um artista tão multifacetado e quase inclassificável? Julgamos que vale a pena deter-nos em alguns pontos de vista. 

              Antes de mais nada, não tentemos enquadrar o artista na moldura de uma determinada corrente artística do século XX. Sua obra, a rigor, passa ao largo dos movimentos revolucionários dos inícios do século, que provocaram terremotos e, ainda hoje, os provocam nas sensibilidades da época. Não se descobrem, na obra de Scheffel, subversões, bizarrices e escândalos vanguardistas. Talvez a parte mais polêmica e contestadora de sua produção sejam suas telas e desenhos eróticos, que propõem uma leitura marginal, porém estimulante, de determinados aspectos da sexualidade contemporânea. Afora isso, podemos dizer que Scheffel, sem minimizar a dimensão subversiva da Arte Contemporânea, procura manter-se em águas extraterritoriais. Sua obra se enraíza na arte do passado, em especial na Arte Renascentista, e, em grande parte, nas expressões que floresceram a partir da segunda metade do século XIX. É tributária, em especial, das correntes do Realismo, do Simbolismo e do Romantismo. Scheffel bebeu de todas as fontes, também das contemporâneas. Mas tudo isso é filtrado por um temperamento que não quer abandonar o próprio caminho, pouco importa para onde este o conduza. Tratar-se-á, então, de uma arte "demodée", passadista, arcaizante? Preferimos deixar a resposta aos espectadores. Por nossa parte, destacamos alguns aspectos interessantes da contribuição do artista. Antes de mais nada, sua opção pelo figurativismo, sempre acompanhado por uma meticulosidade técnica que constitui um dos trunfos de sua afirmação pessoal. Cabe aqui uma pergunta: estará a figura exaurida? Terá ela dado o último suspiro? Cremos que não. Um artista contemporâneo chegou até a declarar: "A figura é a Terra Prometida". Sob esse ângulo, permanecer fiel à figura significa, para Scheffel, tomar partido pela História, e pelas dimensões psicológicas e sociológicas da imagem. Por outro lado, numa conjuntura em que o descartável se torna avassalador, como não impressionar-se com o cuidado que o artista põe na elaboração de suas composições? Em nossa opinião, convém valorizar as aquarelas e as criações gráficas de Scheffel. Pode ser que aí se encontre, senão a expressão maior de sua arte, ao menos uma contribuição de indiscutível atualidade. 

              É preciso, igualmente, levar em consideração a parte documental da obra de Scheffel. Temos aí um artista cujas raízes étnicas estão vivas, cujas ressonâncias psicossociológicas têm tudo a ver com a terra natal, inclusive com o gosto dessa terra. O certo é que a FEFS presta um serviço admirável aos estudantes, e ao público em geral de Novo Hamburgo. Sabemos que qualquer artista pode chegar à universalidade através de seus trabalhos, mas antes de atingí-la necessita fazer um ato de juramento à sua própria terra - como diria Chesterton. Van Gogh será menos universal por ser holandês? Admitamos: os girassóis de Van Gogh não são, a rigor, holandeses. São girassóis de qualquer parte do mundo. Mas não podemos duvidar de que a mão que os pintou nasceu e aprimorou-se sob os céus de Rembrandt... E essa qualidade invisível que os torna imortais. De igual forma, a obra pictórica, gráfica, e escultórica de Scheffel é a de um descendente de alemães que amou a terra de seus ancestrais, a despeito de sua vida, em grande parte, longe dela. É uma obra complexa, instigante, provocadora, com clareiras estéticas surpreendentes, que possui, entre outros méritos, o de repropor uma reflexão permanente e fértil sobre o que a cidade precisa para não se esquecer de si mesma.