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SCHEFFEL E SUA MÚSICA

Pablo Komlós
A iniciação musical de Scheffel parte em 1949, por sua iniciativa, com a Organista Elza Kunz Hexssel de Hamburgo Velho, Novo Hamburgo - RS prossegue com o grupo coral do Maestro Maximiliano Hellman, e Liselotte Köbig Finck, Profº Lopes Moreira na Música de Câmara e o Violoncelista professor de Harmonia, Newton Pádua do Conservatório Brasileiro do Rio de Janeiro, entre 1950-1958.

Por cerca de dez anos, desde dezembro de 1959, Scheffel em isolamento no seu primeiro estúdio em Florença, mantém uma intensa atividade compositiva, considerando-se autodidata. Por três anos estuda Música de Câmara e Orquestração com o Maestro Armando Fanelli, do Conservatório Cherubini.

Em 1963 Scheffel apresenta-se como compositor de música, em primeira audição, através da Orquestra Sinfônica de Porto Alegre - OSPA, dirigida pelo Maestro Pablo Komlós.

Em 1970, Scheffel estuda, rigorosamente, com o Maestro Arrigo Benvenuti Composição e Orquestração durante mais três anos, tornado-se um contrapontista contemporâneo. Os três anos de estudo de Música de Câmara e Orquestração com o Maestro Armando Fanelli serviu, igualmente, à preparação musical, como o Estudo de Harmonia com o Maestro Newton Pádua do Conservatório Brasileiro de Música do Rio de Janeiro, na década de 1950.

A. Benvenuti
Como resultado desse período exaltante, foi apresentada novamente em Porto Alegre pela OSPA e dirigida pelo Maestro Silva Pereira a sua "Toccata e Fuga", em comemoração ao Sesquicentenário da Imigração e Colonização Alemã no Rio Grande do Sul, em 1974.

Entre 1983-84 a APLUB possibilitou a realização pioneira de um disco dedicado à música erudita riograndense, gravando dez composições inéditas de Ernesto Frederico Scheffel, através da Orquestra de Câmara da OSPA, regida pelo Maestro Arlindo Teixeira.

A música de Ernesto Frederico Scheffel foi dirigida pelos regentes: Pablo Komlós, Silva Pereira, Humberto Carfi, Piero Gamba, Túlio Belardi, Arlindo Teixeira, Ernani Aguiar, José Pedro Boéssio e Antônio Carlos Borges Cunha.

 
Registro de Som: Dr. Marcello Sfoggia, Claudio Chachamovich e Luizilla Sfoggia. Regente: Arlindo Teixeira e Orquestra de Câmara da OSPA.
 
1983/84. Disco pioneiro de música erudita no Rio Grande do Sul - Orquestra de Câmara da OSPA, dirigida por Arlindo Teixeira - Dez composições inéditas de E.F.Scheffel

 

OBRAS PÚBLICAS

1963

ESTUDO PARA O MONUMENTO AO SAPATEIRO

Monumento ao Sapateiro

Aconteceu que em Novo Hamburgo nascia o desafio às pequenas indústrias do calçado que, unindo-se, criavam a 1ª FENAC. Scheffel foi incluído entre o grupo de pessoas que se responsabilizaram pela decoração interna. Assim nasceu o estudo-projeto do monumento ao Sapateiro. Foi colocado no centro do pavilhão, o arquiteto Aloísio E.Daudt realizou o projeto de um Lago para realçar a figura sóbria e discreta de um jovem artesão sapateiro.

 

 

 

 

1964

“Efígie de Pedro Américo”

Antes, porém, outra surpresa: a omissão de Belas Artes aprovou a efígie em bronze do gênio brasileiro de Areias, Paraíba, Pedro Américo de Figueiredo e Mello, modelada em barro por Scheffel, passada para o gesso e depois para o bronze, numa Fundição especializada, em Florença. A idéia proposta de colocar uma placa com uma escultura do grande Pedro Américo no ateliê onde trabalhou e viveu o artista, deve-se ao Cônsul do Brasil, Dr. Murilo Pessoa.

Mas a inauguração, suntuosamente comemorada na Via aggio, 11 - centro de Firenze, com a presença das Autoridades Locais, Embaixada do Brasil em Roma e Diretores de Museus Florentinos concluiu-se no Palácio Fossi, sede do Consulado do Brasil em Florença, com o então Cônsul Armindo Branco Cadaxa.

Villa Il Pitto


A primeira obra pública, inaugurada pelo Prefeito de Florença, o historiador Prof. Piero Bargellini é de 1966, um oratório antigo ligado à Villa Il Pitto - com Tombamento nacional, o estudo teve de ser aprovado por uma Comissão de 20 especialistas, entre historiadores, arquitetos e artistas.

O historiador Ennio Guarnieri publicou "I Tabernacoli di Firenze", onde há duas reproduções, na pág.35 e 84 da obra em afresco de Ernesto Frederico Scheffel:

"Desaparecida de todo a pintura do quinhentos (1500), o novo afresco é obra original, de um refinado misticismo, do pintor brasileiro Frederico Scheffel. Representa a Virgem que suspende nos braços o Menino, em uma delicada paisagem toscana, com ciprestes que fazem coroa à doce linha das colinas. Três andorinhas, pousadas em torno das figuras, dão gentileza ao céu sereno do fundo. Sobre a base, uma inscrição diz: COELORUM DOMINAE INCOLAE DOMUS QUE IL PITTO NONCUPATUR A . D. MCMLXVI. O tabernáculo inaugurou-se em setembro de 1966."

Madonna del Pitto Cartão de Afresco
Início do trabalho
Obra concluída na Via Buia, de Florença para Roma
Tabernáculo da Ponte de S. Piero a Sierve-Mugello Versão existente de 1947
Tabernáculo da Ponte de S. Piero a Sierve-Mugello Versão de E.F. Scheffel de 1968
Reinauguração doTabernáculo da Ponte de S. Piero aSierve-Mugello em 1968
Reinauguração doTabernáculo da Ponte de S. Piero a Sierve-Mugello em 1968
S. Martino de Vespignano de Vicchio
Festa de Inauguração da obra
Festa de Inauguração da obra
Igreja de S. Martino de Vespignano de Vicchio

Realiza oito Obras Públicas inauguradas a partir de 1964, com a “Efígie de Pedro Américo” - bronze em Via Maggio, 11; “Sagrado Coração de Jesus”, óleosobre tela - 1965; a “Madonna del Pitto”, afresco - 1966; "Batismo de Jesus Ignesti" - afresco 1968; Tabernáculo da "Anunciação" de A. Berti - Projeto Arquitetônico em 1968; "Batismo de Jesus" - Igreja Maria Imaculada de Sesto Fiorentino, 1968; "Pavimento em Mosaico" - tijolo, na Villa Il Pitto - 1970; e o "Beato Giovanni da Vespignano" - óleo sobre madeira, em Vicchio- Mugello, 1970.

Batismo de Cristo Cappella Ignesti - San Piero a Sieve cartão de afresco
Batismo de Cristo Cappella Ignesti - San Piero a Sieve afresco
Scheffel realiza painel para a Caixa Econômica do Estado do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, com o tema "Paisagem Riograndense"

COMENTÁRIOS

1947

Scheffel obtém uma Bolsa de Estudos para o Rio de Janeiro, com a duração de seis meses - quando Scheffel é promovido assistente do mestre e, para poder manter-se, aceita alunos privados indicado por Oswaldo Teixeira.

Mensagem à Assembléia Legislativa de Porto Alegre:

"Na qualidade de professor estadual e professor que fui do magnífico aluno Scheffel, venho dizer-vos o seguinte: Poucas vezes, como esta, tereis oportunidade de obter tão elevado juro de capital empregado e necessário ao aperfeiçoamento do prestimoso cidadão que é Ernesto Frederico Scheffel. Conheço-o suficientemente bem e sei de quanto é capaz. Ele reúne as três qualidades raras e necessárias aos gênios: vocação, entusiasmo, perseverança e talento artístico. Jamais vi em minha longa vida, tantas qualidades reunidas no artista nato. Um só e grande defeito lhe conheço: uma excessiva modéstia. Se a civilização de um povo é equilatada pelo valor de sua arte, tendes, neste momento, a vossa oportunidade. E na Itália e na França que ele deveria estudar as grandes obras. É ali, e sem perda de tempo, que deverá aperfeiçoar-se com os artistas daqueles países, antes que a sua pátria pareça enjeitá-lo como magoadamente revelam os nossos artistas de antanho. Se há inúmeros técnicos nossos, estudando no estrangeiro por conta do Estado, como, aliás, é necessário; não menos necessário é a eficiente ajuda àquele que, nascido artista revelou, em certo tempo, qualidades mais que suficientes a atestar um brilhantismo futuro.

Duas probabilidades se lhe apresenta e de vós depende o sucesso:
1º - Viagem e estadia na Itália e na França: aqui o sucesso será completo.
2º - Estadia no Rio - meio sucesso e insatisfação.
Eu opto, sem reservas, pela primeira. Ernesto deve voltar bem moço, efetuar um tempo de readaptação da sua arte ao ambiente brasileiro, para poder criar escola nacional.
Se não temos atualmente escola, é precisamente porque os nossos artistas se fazem tarde e, regressando em idade avançada, de poucos anos dispuseram e a tempo de formar bom número de discípulos.
É vossa a palavra."

Respeitosamente
Professor João Cândido Canal
Porto Alegre, Junho de 1949.

 

Quando Scheffel é convidado a participar e concorrer pelo 6º Batalhão de Engenharia de Porto Alegre, enquanto integra o Serviço Militar como Cabo, salienta-se para a Medalha de Ouro no II Salão Militar de Artes Plásticas. O Júri embaraçado solicita a compreensão do jovem para dividir a Medalha de Ouro em duas de Prata. Prata para um General e Prata para um simples Cabo do Exército. Nesta ocasião de passagem pelo Rio, Scheffel apresenta-se a Oswaldo Teixeira no Museu Nacional de Belas Artes. Teixeira, vendo os estudos mostrados pelo jovem riograndense, registra imediatamente um seu parecer de conhecedor:

"Vi, com muita atenção os trabalhos que me foram mostrados do jovem Ernesto Frederico Scheffel e tenho a grande satisfação em declarar que os mesmos são muito interessantes, revelando um grande temperamento de artista e dotado de muito senso para a composição. É um jovem que, bem guiado poderá muito produzir porque tem bastante talento e vocação para a arte. Penso que seu Estado devia auxiliá-lo e protegê-lo para que melhor possa produzir e, com facilidade progredir. A sua técnica no desenho já é bastante sólida e com estudo acurado, deverá ampliar-se para que o vôo seja mais alto.
O futuro dirá o que afirmo: Será um grande artista!”

Oswaldo Teixeira

 

1984

O Maestro Arlindo Teixeira - Professor, Regente da OSPA e de corais, foi o regente escolhido por Scheffel para o registro de som em dezembro de 1983, e gravação de disco em 1984. Arlindo Teixeira concedeu uma entrevista à pesquisadora, Professora Julieta M. Damasceno, enquanto esta elaborava um ensaio sobre 'Ernesto Frederico Scheffel Compositor'. Além das musicas que foram gravadas, o Maestro conhece outras:

“O compositor precisa contar com dois esquemas de divulgação: a amizade de pessoas que podem promovê-lo, e patrocinadores. Sem isso, o compositor sofre. Quanto a sua obra, não se filia a nenhuma escola. Individualista. Não procura seguir os passos dos outros. Na fase tonal, a maneira de orquestrar e a harmonização é muito calcada em Wagner, o que dá uma força muito grande, muito interessante, com força interior. Curtiu muito dirigir a gravação editada. A música é melodiosa, mas forte no conteúdo. A fase atonal de Scheffel é desconhecida do público. O compositor traduz o mundo da sua época. No caso de Scheffel é um mundo muito particular, muito dele. A obra reflete o seu mundo, muito intimista. Não procura traduzir musicalmente o dia de hoje, mas o hoje dele, que é a soma das suas experiências. Não busca fora de si a motivação para escrever; é o que tem dentro de si que joga para fora. Nesse sentido, independe desta cronologia que muita gente acha indispensável no compositor. O que importa é que a obra tenha valor, conteúdo, mesmo que hoje não seja reconhecida. A cronologia deixa de ter importância, desde que a obra seja autêntica, seja honesta. Scheffel é o que demonstra em sua obra; e deve continuar nessa mesma linha, podendo até evoluí-la. A execução do disco não foi boa. Em conseqüência do orçamento limitado, a obra foi gravada em duas sessões, sem ensaios prévios, de oito horas. Para um melhor resultado, seriam necessárias duas semanas de trabalho. Além desse fato, na época, os músicos estavam por demais atarefados e sem concentração. Algumas peças estão bem, e outras não deveriam ter constado do disco. As canções são lindas. Encerrando, digo, que o que causa estranheza é como um artista plástico pode manejar tão bem as cores do som.”

Estado do Rio Grande do Sul
Secretaria da Educação e Cultura
Conselho Estadual de Cultura
OF. CEC / 198-84 Porto Alegre, 26 de junho de 1984.

 

Prezado Senhor,
"O Conselho Estadual de Cultura, atendendo a uma proposição do Conselheiro Itálico Marcon resolveu, por unanimidade, em sua reunião de 20 do corrente, manifestar-lhe seus aplausos pela iniciativa de gravar música erudita do Rio Grande, tornando-se assim o pioneiro em disco nesse gênero artístico entre nós.
Receba, na oportunidade, as expressões de nosso mais alto apreço de par com nossas atenciosas saudações.”

Luiz Benito Viggiano Luisi.
Presidente em Exercício

 

Pintor PIETRO ANNIGONI - Florença, Junho, 1987.

"Frederico Scheffel é um pintor muito dotado, forte no desenho. No mundo da arte de hoje é um solitário que não vacila e que em cada obra reforça inexoravelmente o seu credo; um solitário, que em meio a tanta mediocridade, se ilumina de luz própria, de uma luz, vale dizer, que prorrompe de sua fé sólida e de sua honestidade”.

 

Escultor ANTONIO BERTI - Sesto Fiorentino, Novembro, 1987.
Professor da Academia de Belas Artes

"Ernesto Frederico Scheffel possui um curriculum vitae verdadeiramente notável, além de pintor e escultor é, também, compositor de música clássica e contemporânea. Fui Professor de Escultura na Academia de Belas Artes de Florença, onde Scheffel aperfeiçoou-se neste campo da arte e tive o prazer de observar que seu natural modo de proceder correspondia plenamente com o meu método de ensino. O "Cavalo" por ele realizado durante todo o período de 1959/60, é um trabalho muito belo como escultura e digno, na sua potência, das grandes obras. A personalidade do artista Scheffel fala de um mundo todo seu, às vezes, plenamente aderente a uma realidade clara e luminosa, às vezes, inspirada no exprimir verdades transcendentais que contém mistério”.

 

Compositor ARRIGO BENVENUTTI, Florença, Junho, 1987.
Professor do Conservatório Cherubini

"Foi em seguida a um caso fortuito que encontrei e conheci Scheffel; um encontro do qual considero-me verdadeiramente afortunado porque veio a criar-se um relacionamento de sincera amizade entre dois artistas e não aquela simples atmosfera que se estabelece geralmente entre aluno e mestre. Se Scheffel veio a mim por três anos durante os quais capturou os instrumentos e os truques do ofício de musicista, reforçando deste modo o seu credo musical, é incrível quanto tenha permanecida intacta a sua personalidade de artista, indiferentemente pintor e musicista. Depois daquele período (1970-73) considerando que o amigo Scheffel estivesse em condições de escrever música sem a minha intervenção, não veio a separação que se verifica, por exemplo, depois da obtenção do atestado de conclusão do curso (o diploma), mas verificou-se ao contrário mais forte aquela amizade que Scheffel tinha já conquistado por méritos artísticos, inteligência, estima e simpatia. Em suma fui de tal modo feliz em ter conhecido este artista sensível, pleno de temperamento, rico de idéias e de ideais que depois das primeiras lições de composição senti com prazer não mais considerá-lo como 'Aluno', mas uma espécie de 'Discípulo independente'."



Como forma de agradecimento, em 1992 o arquiteto Aloísio Eduardo Daudt envia a Scheffel o seguinte texto:

"AO SCHEFFEL
Em nome da 'Associação dos Amigos de Hamburgo Velho', venho prestar uma pequena homenagem ao Ernesto Frederico Scheffel.
Frederico, mesmo não participando do grupo 'Amigos de Hamburgo Velho, é sem dúvida seu precursor, amigo mais ilustre e representante número um. Precursor, pois foi com Scheffel que se iniciaram os movimentos preservacionistas do morro de Hamburgo Velho, na tentativa de resgatar sua história. Já faz vinte anos.
Amigo mais ilustre, pois com sua visão, sua sensibilidade e cultura artística, iniciou a todos que tivessem interesse em aprender a necessidade da preservação do patrimônio cultural e com seus ensinamentos proporcionar novas motivações e adesões de preservação.
Representante número um da cidade, pois com suas atividades artísticas e com suas obras de arte, leva Novo Hamburgo - Hamburgo Velho, para além dos limites do Município, principalmente para Florença, Itália, onde vive e desempenha a maior parte de suas funções artísticas na atualidade.
Conhecendo a sensibilidade do Ernesto, pintor, escultor, compositor e filósofo, apoiado pelos Amigos de Hamburgo Velho, propus materializar esta homenagem, criando um objeto escultórico, composto por duas peças significativas do telhado original da Casa Schmitt-Presser, cimalha de madeira e telha de barro, representando assim o primeiro marco nas conquistas que todos pretendemos."

Obrigado Scheffel
Receba esta homenagem
Novo Hamburgo, 05 de dezembro – 1992.
Aloísio Eduardo Daudt - Arquiteto